LGBTQIAPN+, o inconsciente e a arte: qual a importância desse encontro?
- Raphael Isaac
- 2 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 9 de ago. de 2025
Por Raphael Isaac – CRP 01/29995
“Como algo tão lindo, tão pessoal e tão extraordinário, como compartilhar com o mundo um feito que vibrava pura alegria, poderia ser percebido com tanta maldade por outras pessoas?”
Essa frase poderia ser dita por muitas pessoas LGBTQIAPN+, mas é de Mau Hábito, de Alana S. Portero — um livro que escancara a exclusão, o desejo e a beleza. Nascida em uma família operária da periferia de Madri, Alana escreve sobre a experiência de crescer trans em um mundo que a nomeava sempre de forma errada. Mas há algo que extrapola à dor em sua escrita: há desejo. E onde há desejo, há pulsão de vida.
Na psicanálise, aprendemos que a subjetivação é estruturada pela linguagem — e por vezes, pelo que falta nela. Quando uma criança não encontra palavras para dizer quem é, ou quando as palavras que recebe dizem apenas “você não pode ser assim”, a arte pode funcionar como uma dobra do simbólico: um lugar onde ela ainda assim possa existir.
Em minha pesquisa, encontrei resultados que apontavam para o papel constitutivo da mídia queer (literária, visual, performática) em identidades e subjetividades da população LGBTQIAPN+. Para Alana, foi a literatura, o teatro e a beleza. Para outras pessoas dissidentes (fora dos padrões), pode ser a maquiagem e/ou as roupas escondidas, o diário secreto, o desenho que desafia a lógica binária. A estética torna-se um espaço de inscrição do desejo, antes mesmo de ele ter autorização para existir no campo social.
Quantos adolescentes chegam ao consultório carregando o peso de uma história que foi sistematicamente negada? Muitas vezes, o sintoma não nasce do "interior", mas de uma cena externa de exclusão, silenciamento e violência. A clínica com pessoas LGBTQIAPN+ exige de nós escuta, mas também posicionamento. Não se trata de "corrigir" o sofrimento, mas de dar espaço para que ele se inscreva e se transforme em novas possibilidades.
O livro Mau Hábito é um lembrete de que, mesmo no meio da dor, há lampejos de resistência. A infância trans de Alana não foi narrada em voz alta, mas foi escrita. E é nesse ato de escrever, de recontar, de estetizar o vivido, que o sujeito pode deixar de ser apenas objeto da norma para se tornar autor de si. Na clínica, essa operação pode ser lenta, singular, cheia de tropeços — mas é possível.
Atender pessoas dissidentes é escutar vidas que desafiaram a gramática do possível. É subverter o simbólico do inadmissível. É reconhecer que existir, para muitos, já é um ato estético, político e profundamente psíquico.
Você já se sentiu fora das palavras que esperavam de você?
Na psicoterapia, criamos juntos um espaço onde sua narrativa pode emergir com liberdade, sem correções.


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