Epidemia diagnóstica: quando a biologia se sobrepõe ao social — e silencia o sofrimento
- Raphael Isaac
- 15 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
por Raphael Isaac CRP 01/29995
Você já sentiu que algumas dores que não têm nome são tratadas como se fossem apenas doenças? Hoje, vivemos num tempo em que muitas questões psíquicas ganham um contorno biológico. Essa forma de ver os sofrimentos, com foco em diagnóstico e medicação, pode funcionar para alguns casos. Mas, para muitos de nós, essa lógica acaba colocando em segundo plano o que realmente importa: o que nos fez adoecer, de verdade.
Ainda que o termo “epidemias diagnósticas” possa soar exagerado, ele descreve uma realidade: classificamos cada vez mais emoções e vivências como doenças. Essa forma de categorizar o sofrimento humeno tem origem no modelo biomédico-sanitário, que recebe críticas por reduzir o humano ao sintoma biológico, esquecendo o contexto, a história e o sofrimento marcante.
Hoje entende-se que para analisar o sujeito é necessário uma visão mais integral, o chamado modelo biopsicossocial, que entende que o sofrimento humano é iluminado por fatores biológicos, psicológicos e sociais ao mesmo tempo — não só um ou outro.
Pense em traumas, perseguições e desigualdades que produzem sofrimento. Muitas vezes, buscamos um nome, um medicamento, uma cura rápida, o que, por um lado, pode aliviar o sintoma. Por outro, pode nos levar a não perguntar: por que dói? Na psicanálise, sabemos que a dor carrega sentido. Freud nos ensina sobre a repetição e o sintoma como fala do inconsciente. Não se trata apenas de bloquear ou corrigir, mas de escutar o que o corpo diz quando a psique não sabe se expressar.
A psicoterapia, especialmente aquela de orientação psicanalítica, abre caminho para escutar o indizível. Alguns de seus efeitos fundamentais são:
Autoconhecimento profundo, que reconecta quem você é à história que você carrega;
Resolução de traumas, com elaboração de memórias que não causam mais dor paralisante;
Melhora nos relacionamentos, porque permitimos que o passado não condicione o presente.
Diagnósticos são úteis e, em alguns momentos, necessários. Mas não devem substituir a escuta que devolve significado à vida. A psicoterapia acolhe o lugar onde a biologia encontra o social, sem ignorar o interior afetado e a história que não cabe na simples lógica dos sintomas. Se você sente que sua dor é maior do que um diagnóstico, saiba que há um espaço para que ela seja dita, acolhida e ainda transformada.

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